A dor que cegou um santo
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A história pouco conhecida de São Francisco de Assis e uma das doenças oculares mais antigas da humanidade.
Existem histórias que não pertencem apenas à religião.
Pertencem também à medicina.
Durante séculos, milhões de pessoas admiraram São Francisco de Assis pela pobreza voluntária, pela paz que pregava e pelo amor aos animais. Poucos sabem, porém, que seus últimos anos foram marcados por uma enfermidade ocular devastadora, capaz de transformar cada raio de luz em sofrimento.
Não sabemos exatamente qual doença acometeu seus olhos.
Mas há uma hipótese que atravessa a oftalmologia há quase um século.
Tracoma.
Hoje quase esquecido em boa parte do mundo desenvolvido, o tracoma foi durante muitos séculos uma das principais causas de cegueira da humanidade. A infecção provoca inflamação crônica das pálpebras; repetidos episódios deixam cicatrizes que deformam sua anatomia, fazendo com que os cílios passem a raspar continuamente a córnea. O resultado é dor intensa, fotofobia, secreção ocular constante e perda progressiva da visão. Ainda hoje, permanece como a principal causa de cegueira infecciosa evitável no mundo.
Em 1219, durante a Quinta Cruzada, Francisco atravessou o Mediterrâneo e visitou o Egito, onde encontrou o sultão Al-Kamil em uma missão de paz. Regressou à Itália no ano seguinte. As fontes franciscanas relatam que, pouco tempo depois dessa viagem, começaram os problemas que o acompanhariam até o fim da vida.
Se a hipótese do tracoma estiver correta, é possível que tenha adquirido a infecção justamente no Oriente Médio, onde a doença era altamente prevalente naquela época. Nunca saberemos com certeza. Mas a coincidência histórica impressiona.
Os relatos descrevem um homem que sofria em silêncio.
A luz o incomodava.
Os olhos lacrimejavam continuamente.
As secreções eram frequentes.
Piscar tornou-se doloroso.
E, lentamente, a escuridão começou a ocupar o lugar da luz.
Francisco, entretanto, resistia aos cuidados médicos.
Sua espiritualidade o levava a aceitar o sofrimento físico com uma serenidade que hoje parece quase incompreensível. Durante anos recusou o tratamento sugerido por Ugolino de Óstia — o cardeal que mais tarde se tornaria o papa Gregório IX — permitindo apenas que os irmãos aliviassem sua dor com compressas e unguentos.
Somente em 1225, depois de muita insistência do irmão Elias, aceitou procurar os médicos.
A medicina medieval possuía poucos recursos.
O tratamento considerado mais avançado consistia em cauterizar as pálpebras com um ferro em brasa.
Hoje esse procedimento parece brutal.
Naquele século, representava o que havia de mais sofisticado.
Antes da cauterização, Tomás de Celano narra um episódio extraordinário.
Francisco dirigiu-se ao próprio fogo como quem conversa com um irmão:
"Meu irmão Fogo, o Altíssimo te fez belo, útil e forte. Sê cortês comigo nesta hora. Rogo ao Criador que moderes teu calor para que eu possa suportá-lo."
O ferro incandescente percorreu da sobrancelha até a região próxima ao olho.
Os presentes esperavam gritos.
Segundo as biografias franciscanas, eles nunca vieram.
Ao término do procedimento, Francisco apenas agradeceu ao "irmão Fogo".
Nada disso, porém, conseguiu impedir a progressão da doença.
Pouco mais de um ano depois, em 3 de outubro de 1226, São Francisco morreu praticamente sem visão. Tinha apenas 44 anos.
Há uma beleza silenciosa nessa história.
Nós, oftalmologistas, dedicamos a vida a preservar aquilo que ele estava perdendo: a capacidade de contemplar o mundo.
Mas talvez a maior lição não esteja apenas na doença.
Enquanto seus olhos deixavam de enxergar a criação, sua maneira de olhar para as pessoas permanecia intacta.
É um paradoxo profundamente humano.
A visão pode desaparecer.
O olhar, nunca.





