CERATOCONE NA INFÂNCIA: QUANDO O “ASTIGMATISMO” PODE ESCONDER ALGO MAIOR
Um estudo encontrou ceratocone em quase 1 a cada 10 crianças e adolescentes com erros refrativos importantes. O dado não significa que 9,4% de todas as crianças tenham a doença — mas traz um alerta importante para o diagnóstico precoce.

Uma criança troca os óculos. Algum tempo depois, o grau muda novamente. O astigmatismo aumenta, a visão com os novos óculos já não fica tão boa quanto se esperava e, muitas vezes, surge um detalhe aparentemente sem relação com tudo isso: ela coça bastante os olhos.
Pode parecer apenas mais um caso de erro refrativo da adolescência.
Mas, em alguns pacientes, existe uma possibilidade que merece ser investigada: ceratocone.
Um interessante estudo publicado na revista científica Cornea avaliou justamente crianças e adolescentes com menos de 18 anos encaminhados para tomografia da córnea por apresentarem erros refrativos significativos. O resultado chamou atenção: entre 426 pacientes examinados, 40 apresentavam ceratocone — uma frequência de 9,4%. (PubMed)
Em outras palavras, dentro daquele grupo selecionado de jovens com maior risco, aproximadamente 1 em cada 11 tinha ceratocone.
E esse talvez seja o primeiro grande ensinamento do trabalho.
Mas atenção: isso não significa que 9,4% das crianças tenham ceratocone
Esse ponto é fundamental.
Os pesquisadores não examinaram aleatoriamente crianças da população geral. Os pacientes haviam sido encaminhados para exame com Pentacam porque já apresentavam características que despertavam suspeita, como miopia elevada, astigmatismo superior a 2 dioptrias ou astigmatismo em determinados eixos oblíquos. (reviewofoptometry.com)
Portanto, os 9,4% não representam a prevalência de ceratocone em todas as crianças.
O verdadeiro recado é outro:
quando uma criança ou adolescente apresenta um erro refrativo incomum ou importante, a chance de existir uma alteração corneana relevante deixa de ser desprezível.
E isso muda a maneira de olhar para uma simples receita de óculos.
O ceratocone da criança não é simplesmente um “ceratocone de adulto pequeno”
O ceratocone provoca progressivo afinamento e deformação da córnea. Ela vai perdendo sua geometria regular e assumindo uma curvatura mais assimétrica.
O resultado pode ser astigmatismo irregular, miopia, piora da qualidade óptica, imagens fantasmas e redução da visão mesmo com óculos.
Na criança e no adolescente existe, porém, uma particularidade: a doença pode progredir de maneira mais rápida e agressiva do que no adulto.
Por isso, o ceratocone pediátrico ganhou atenção especial nos últimos anos. Um consenso clínico europeu publicado em 2026 reforça justamente a necessidade de diagnóstico, acompanhamento e tratamento específicos nessa faixa etária. (PubMed)
No estudo colombiano, a idade média no momento do diagnóstico foi de apenas 14,9 anos. Além disso, 75% dos pacientes diagnosticados eram do sexo masculino. (PubMed)
Isso significa que, quando pensamos em ceratocone, não deveríamos imaginar apenas um jovem adulto de 20 ou 25 anos.
A doença pode estar silenciosamente se desenvolvendo anos antes.
A ALERGIA APARECEU COMO UMA DAS GRANDES PROTAGONISTAS
Talvez o dado mais interessante de todo o estudo esteja fora da topografia.
Entre as crianças e adolescentes com ceratocone, 85% apresentavam atopia, e essa foi a única variável analisada que demonstrou associação estatisticamente significativa com a doença. (PubMed)
Atopia é a tendência a apresentar doenças alérgicas, como rinite, dermatite, asma e alergias oculares.
E aqui surge uma conexão extremamente importante na oftalmologia:
alergia → coceira ocular → trauma mecânico repetitivo da córnea.
Não significa que toda criança alérgica desenvolverá ceratocone. Muito menos que a alergia seja a única causa da doença.
O ceratocone é multifatorial e envolve fatores genéticos, biomecânicos e ambientais.
Mas existe hoje grande preocupação com um hábito aparentemente inocente:
esfregar os olhos.
Quem tem alergia ocular frequentemente coça os olhos com força, repetidas vezes e durante anos. Essa agressão mecânica sobre uma córnea suscetível pode participar do desenvolvimento ou da progressão da ectasia.
Por isso, atualmente, perguntar ao paciente com ceratocone “você coça os olhos?” pode ser tão importante quanto perguntar qual é o seu grau.
“Mas ninguém da minha família tem ceratocone”
Esse é outro aspecto interessante do estudo.
Apenas 7,5% dos pacientes com ceratocone apresentavam história familiar conhecida da doença. (PubMed)
Isso não elimina a participação genética.
Muitos familiares podem apresentar formas muito discretas ou nunca terem realizado uma tomografia corneana. Além disso, o ceratocone não segue uma herança genética simples na maioria dos casos.
Mas o dado traz uma mensagem prática:
a ausência de alguém diagnosticado com ceratocone na família não exclui a doença.
O QUE A TOMOGRAFIA ENXERGA QUE OS ÓCULOS NÃO CONTAM?
Durante décadas, o ceratocone era diagnosticado principalmente quando já provocava alterações importantes na curvatura anterior da córnea.
Hoje a investigação é muito mais sofisticada.
Equipamentos de tomografia corneana conseguem analisar não apenas a superfície anterior, mas também a superfície posterior da córnea, sua espessura e a distribuição espacial dessa espessura.
E o estudo trouxe justamente um detalhe curioso.
Na classificação ABCD do ceratocone, o parâmetro relacionado à curvatura posterior da córnea apresentou alterações importantes, reforçando que a face posterior pode fornecer informações valiosas sobre a gravidade da doença. (PubMed)
É como observar uma montanha não apenas pela sua face externa, mas também pela maneira como sua estrutura está se modificando internamente.
Por isso, uma córnea que aparentemente ainda não parece dramaticamente alterada na consulta pode já apresentar sinais tomográficos de ectasia.
KMAX E PAQUIMETRIA: NÚMEROS IMPORTANTES, MAS NÃO MÁGICOS
É comum vermos valores como Kmax acima de aproximadamente 48 dioptrias ou córneas mais finas sendo utilizados como sinais de alerta.
Eles são úteis.
Mas existe uma ressalva importante.
Hoje não é adequado diagnosticar ceratocone simplesmente dizendo:
“Passou de determinado Kmax, então tem ceratocone.”
Ou:
“A córnea tem menos de determinado número de micra, portanto é ceratocone.”
Uma córnea naturalmente mais fina pode ser normal. Da mesma maneira, uma córnea relativamente espessa pode apresentar ectasia inicial.
O diagnóstico moderno considera o conjunto dos achados: padrão da curvatura, elevação anterior e posterior, distribuição paquimétrica, assimetria, índices tomográficos, refração e evolução ao longo do tempo.
Isso é especialmente importante nas formas iniciais.
O QUE DEVE ACENDER O SINAL DE ALERTA?
Na prática, existem algumas situações nas quais vale ter um limiar baixo para solicitar topografia ou tomografia corneana em crianças e adolescentes:
aumento rápido ou inexplicado do astigmatismo;
astigmatismo elevado ou irregular;
piora frequente do grau dos óculos;
visão que não melhora como esperado com a melhor correção;
alergia ocular importante e hábito de coçar os olhos;
história familiar de ceratocone;
assimetria refrativa ou visual significativa entre os dois olhos;
sinais sugestivos na retinoscopia.
O consenso e as revisões recentes sobre ceratocone pediátrico também ressaltam a importância de vigilância mais próxima justamente porque a progressão pode ocorrer mais rapidamente nessa idade. (EyeWiki)
E SE O CERATOCONE FOR DESCOBERTO CEDO?
Aqui está provavelmente a parte mais importante de toda essa história.
Décadas atrás, um paciente com ceratocone progressivo podia caminhar durante anos até estágios avançados e, eventualmente, necessitar de transplante de córnea.
Hoje existe a possibilidade de mudar essa história natural.
O crosslinking corneano (CXL) tem como principal objetivo aumentar a estabilidade biomecânica da córnea e reduzir a probabilidade de progressão do ceratocone.
Isso não significa que toda criança com qualquer suspeita precise imediatamente de um procedimento.
É necessário avaliar diagnóstico, idade, gravidade, qualidade dos exames e evidência de progressão.
Mas exatamente porque crianças podem apresentar evolução mais rápida, a conduta costuma exigir vigilância mais cuidadosa e menor tolerância a uma progressão documentada. (PubMed)
Outros tratamentos, como lentes de contato especiais e, em pacientes selecionados, segmentos de anel intracorneano, têm objetivos predominantemente relacionados à reabilitação óptica e melhora da geometria corneana.
O princípio é simples:
primeiro proteger a córnea da progressão; depois buscar a melhor qualidade visual possível.
A CURIOSIDADE QUE SE TRANSFORMA EM PREVENÇÃO
O aspecto mais interessante desse estudo talvez não seja descobrir que 9,4% de um grupo selecionado de crianças apresentava ceratocone.
É perceber quantas pistas podem surgir antes do diagnóstico.
Um adolescente que troca repetidamente os óculos.
Um astigmatismo que aumenta.
Uma criança alérgica que vive esfregando os olhos.
Uma visão que continua imperfeita mesmo depois de atualizar a refração.
Separadamente, cada uma dessas situações pode parecer banal.
Juntas, podem contar uma história diferente.
E existe uma ironia particularmente bonita na oftalmologia moderna: às vezes, uma doença capaz de alterar profundamente a visão pode começar com algo tão aparentemente simples quanto uma criança coçando os olhos.
Reconhecer isso cedo pode representar a diferença entre apenas acompanhar a perda progressiva da arquitetura da córnea e ter a oportunidade de interromper essa história antes que ela chegue aos capítulos mais graves.
Referência científica principal
Sarria Calderón NA, Martínez Córdoba CJ, Pinedo Agudelo JA, Rosas Apraez JA, Revelo Álvarez ML.Keratoconus Frequency and Associated Risk Factors Among Patients Younger Than 18 Years With Significant Refractive Errors. Cornea. 2024;43(5):585-590. DOI: 10.1097/ICO.0000000000003376. (PubMed)
dr Flavio Germano. médico oftalmologista especialista em ceratocone - Bauru / SP





