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Qual é a melhor lente intraocular para cirurgia de catarata?

  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

A resposta que todo paciente gostaria de ouvir — e a resposta que a medicina realmente deve dar

Quando o paciente descobre que precisa operar a catarata, uma das primeiras perguntas costuma ser: “Doutor, qual é a melhor lente?”

Essa pergunta é compreensível. Afinal, durante a cirurgia de catarata, o cristalino natural, que ficou opaco, é removido e substituído por uma lente intraocular artificial. Essa lente permanecerá dentro do olho por muitos anos — em geral, pelo resto da vida. Portanto, escolher bem importa.

Mas aqui está a primeira verdade importante: não existe uma lente intraocular universalmente melhor para todos os pacientes.

Existe a melhor lente para aquele olho, para aquela retina, para aquela córnea, para aquele grau, para aquela profissão, para aquele estilo de vida e, principalmente, para aquela expectativa.

A cirurgia de catarata deixou de ser apenas uma cirurgia para “tirar a catarata”. Hoje, ela também é uma cirurgia de planejamento visual. Em muitos casos, é possível reduzir a dependência dos óculos para longe, para perto ou para distâncias intermediárias. Mas toda escolha óptica envolve vantagens, limites e compensações.

Por isso, a melhor lente intraocular não é simplesmente a mais moderna, a mais cara ou a mais divulgada. A melhor lente é aquela que entrega o melhor equilíbrio entre qualidade de visão, segurança, previsibilidade e satisfação.

A lente monofocal: a escolha clássica, segura e confiável

A lente monofocal é a mais tradicional. Ela costuma ser planejada para oferecer boa visão em uma distância principal, geralmente para longe. Nessa situação, o paciente tende a enxergar bem para dirigir, caminhar, assistir televisão e reconhecer pessoas à distância, mas precisará de óculos para leitura, celular, costura ou atividades próximas.

É uma lente de excelente qualidade óptica, especialmente quando buscamos nitidez, contraste e menor risco de fenômenos luminosos como halos e glare. Para pacientes que dirigem muito à noite, têm doenças de retina, glaucoma avançado, irregularidades corneanas ou não se incomodam em usar óculos para perto, a lente monofocal pode ser uma escolha muito sábia.

É importante dizer: monofocal não significa simples no sentido de inferior. Muitas vezes, ela é a opção mais elegante, segura e previsível.

A lente tórica: quando o astigmatismo também precisa ser tratado

Muitos pacientes têm catarata e astigmatismo ao mesmo tempo. O astigmatismo é uma irregularidade da curvatura da córnea que causa sombra, distorção, letras duplicadas e pior qualidade visual.

Nesses casos, pode ser indicada uma lente intraocular tórica, que já carrega em sua estrutura a correção do astigmatismo. A lente tórica pode ser monofocal, multifocal, trifocal ou de foco estendido, dependendo do caso.

Esse detalhe é fundamental: às vezes, o paciente investe em uma lente “premium”, mas se o astigmatismo não for corretamente tratado, o resultado pode não atingir o potencial esperado. Por isso, exames como biometria, topografia, tomografia de córnea e avaliação do astigmatismo posterior são tão importantes no planejamento.

Em termos práticos, para quem tem astigmatismo regular significativo, a lente tórica pode representar uma diferença enorme na independência dos óculos para longe.

Lentes trifocais: mais liberdade dos óculos, mas com critérios

As lentes multifocais e trifocais foram desenvolvidas para ampliar a independência dos óculos. Elas distribuem a luz em diferentes focos, permitindo visão para longe, intermediário e perto.

Para muitos pacientes bem selecionados, o resultado é transformador: dirigir, usar computador, olhar o celular, ler cardápios e realizar atividades cotidianas com menos dependência de óculos.

Mas existe uma conversa ética que precisa acontecer antes da cirurgia.

Como essas lentes dividem a luz em mais de um foco, alguns pacientes podem perceber halos ao redor das luzes, brilho, glare ou redução de contraste, principalmente à noite. Isso não significa que a lente seja ruim. Significa que ela tem uma assinatura óptica própria.

Estudos recentes mostram que as lentes trifocais podem oferecer excelente independência dos óculos, especialmente para perto. Uma metanálise de 2024 avaliou 28 estudos randomizados, com 2.465 participantes, e encontrou melhor visão de perto não corrigida com lentes trifocais em comparação às monofocais, além de melhor independência dos óculos em várias distâncias [1].

Por outro lado, uma metanálise específica sobre lentes trifocais mostrou que sintomas como halos, glare e starbursts podem ocorrer em parte dos pacientes. O dado interessante é que, embora os fenômenos luminosos sejam relativamente comuns, os sintomas severos ou muito incômodos foram bem menos frequentes [2].

Essa é exatamente a medicina moderna: não esconder riscos, mas contextualizá-los.

Lentes EDOF: a busca pelo equilíbrio

As lentes EDOF, ou lentes de profundidade de foco estendida, foram criadas para entregar uma faixa mais contínua de visão, principalmente de longe até intermediário.

Elas costumam ser interessantes para pacientes que desejam boa visão para dirigir, computador, painel do carro, televisão, cozinha, supermercado e atividades de meia distância, com menor chance de fenômenos luminosos quando comparadas a algumas lentes multifocais.

O ponto fraco é que a visão de perto pode não ser tão forte quanto a de uma trifocal. Em muitos casos, o paciente com EDOF pode precisar de óculos para letras pequenas ou leitura prolongada.

Em resumo: a trifocal tende a favorecer mais a independência para perto; a EDOF tende a buscar mais equilíbrio entre qualidade visual e menor disfotopsia.

Lentes monofocais “premium” ou de foco intermediário aprimorado

Uma tendência muito interessante dos últimos anos é o crescimento das lentes chamadas de monofocais aprimoradas. Elas não são multifocais clássicas, mas tentam oferecer uma visão intermediária um pouco melhor que a monofocal tradicional, preservando boa qualidade visual.

Para muitos pacientes, essa categoria pode ser uma solução elegante: melhora a autonomia para tarefas do dia a dia sem assumir o mesmo perfil de halos de uma lente multifocal.

É uma opção especialmente interessante quando o paciente quer qualidade visual, mas não quer correr tanto risco de perceber fenômenos luminosos.

A lente ajustável após a cirurgia: uma das ideias mais fascinantes da oftalmologia moderna

Uma das tecnologias mais surpreendentes da cirurgia de catarata moderna é a lente ajustável por luz, conhecida internacionalmente como Light Adjustable Lens.

A ideia parece ficção científica: implanta-se a lente durante a cirurgia e, depois da cicatrização inicial, o grau pode ser refinado por aplicações controladas de luz em consultório. Ou seja, em vez de depender apenas da previsão matemática antes da cirurgia, parte do ajuste pode ser feita depois, com o olho já cicatrizado.

Essa tecnologia é especialmente interessante em olhos com maior risco de surpresa refracional, como pacientes que já fizeram cirurgia refrativa prévia. Um estudo de 2024 mostrou resultados promissores com esse tipo de lente, com alta proporção de olhos atingindo visão sem correção de 20/20 ou 20/25 em cenários selecionados [3].

Ainda assim, como toda tecnologia, ela precisa ser indicada com critério, depende de disponibilidade, custo, adesão do paciente às etapas pós-operatórias e proteção adequada contra luz ultravioleta até o término dos ajustes.

O maior erro: escolher a lente antes de conhecer o olho

A escolha da lente intraocular começa antes da cirurgia. E começa nos exames.

Antes de indicar uma lente premium, é necessário avaliar:

A córnea é regular?Existe astigmatismo?O olho é seco?A retina está saudável?Há sinais de degeneração macular?Existe glaucoma?A pupila é adequada?O paciente dirige muito à noite?Ele usa mais celular, computador ou livros?Ele aceita a possibilidade de usar óculos em algumas situações?A expectativa é realista?

Uma lente multifocal em um olho com retina comprometida pode gerar frustração. Uma lente não tórica em um paciente com astigmatismo relevante pode deixar visão borrada. Uma lente excelente, mal indicada, pode se tornar uma lente ruim para aquele paciente.

A pergunta que eu prefiro fazer ao paciente

Em vez de perguntar apenas “qual lente você quer?”, eu gosto de entender:

Como você usa seus olhos durante o dia?

Essa pergunta muda tudo.

Um motorista noturno precisa de uma estratégia diferente de alguém que trabalha oito horas no computador. Um paciente que lê livros por horas tem uma necessidade diferente de alguém que usa mais celular. Um paciente extremamente exigente com halos pode não ser bom candidato a uma multifocal, mesmo que deseje não usar óculos. Um paciente que aceita pequenos fenômenos luminosos em troca de maior liberdade dos óculos pode ser excelente candidato a uma lente trifocal.

A lente intraocular não deve ser escolhida como se escolhe um produto de prateleira. Ela deve ser escolhida como se escolhe uma lente para uma vida.

Então, qual é a melhor lente?

A resposta mais honesta é:

A melhor lente intraocular é aquela que respeita quatro pilares:

1. A saúde do olho: Córnea, retina, nervo óptico, superfície ocular e anatomia precisam permitir a escolha.

2. O objetivo visual: Ver melhor para longe? Para perto? Para computador? Reduzir óculos ao máximo? Preservar contraste? Evitar halos?

3. A personalidade visual do paciente: Há pacientes que toleram pequenas adaptações. Outros são extremamente sensíveis a qualquer alteração luminosa. Isso precisa ser conversado antes.

4. A previsibilidade cirúrgica: Biometria, fórmula de cálculo, controle do astigmatismo, experiência cirúrgica e tecnologia disponível influenciam diretamente o resultado.

Minha visão como oftalmologista

A cirurgia de catarata moderna é uma das maiores conquistas da medicina. Ela pode devolver nitidez, cor, contraste, autonomia e qualidade de vida. Mas o sucesso não está em prometer “visão perfeita”. Está em planejar com precisão e conversar com honestidade.

Uma boa lente pode transformar a visão.Uma lente bem indicada pode transformar a rotina.Mas a melhor lente é aquela que combina tecnologia com prudência.

No fim, a escolha ideal não é entre lente simples ou lente premium.

A escolha ideal é entre uma indicação genérica e uma indicação personalizada.

E quando a lente é escolhida com ciência, ética e escuta, a cirurgia de catarata deixa de ser apenas a remoção de uma opacidade: torna-se uma oportunidade de redesenhar a forma como o paciente enxerga o mundo.

Agende uma consulta para mais informações

Dr Flavio Germano - médico oftalmologista especialista em catarata (mais de 7 mil cirurgias)

Centro de Excelência em Oftalmologia - CEO - Bauru


Referências

[1] Li et al., 2024, revisão sistemática e metanálise em rede com 28 estudos randomizados e 2.465 participantes: trifocais tiveram melhor visão de perto e maior independência dos óculos; EDOF e monofocais aprimoradas melhoraram visão intermediária, reforçando a escolha individualizada. [2] Zhu et al., 2025, metanálise com 11 estudos e 580 pacientes implantados bilateralmente com PanOptix: glare 33,6%, halos 43,9%, starbursts 30,4%, mas sintomas severos ou muito incômodos foram bem menos frequentes. [3] Jones et al., 2024, estudo sobre Light Adjustable Lens em olhos com histórico de cirurgia refrativa: 74% dos olhos atingiram UDVA 20/20 ou melhor, 88% 20/25 ou melhor e 93% eram corrigíveis para 20/20 ou melhor.

Dados de contexto: a OMS estima que a catarata responda por cerca de 94 milhões de casos de deficiência visual à distância ou cegueira entre condições ainda não resolvidas, e a cobertura cirúrgica efetiva global de catarata estimada pelo IAPB é de 44%, mostrando que a cirurgia é ao mesmo tempo altamente tecnológica e um enorme desafio de saúde pública.

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