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Anel Intracorneano e Crosslinking: a Ordem dos Tratamentos Importa no Ceratocone?

  • Foto do escritor: Flávio Germano
    Flávio Germano
  • 12 de jan.
  • 4 min de leitura

O que a ciência mais recente revela — explicado para quem não é médico

O ceratocone é uma doença da córnea — a lente transparente na frente do olho — que faz com que ela fique mais fina e deformada, assumindo um formato de “cone”. Essa alteração muda a forma como a luz entra no olho, causando visão borrada, distorcida, sombras e dificuldade para enxergar mesmo com óculos.

Para entender o tratamento do ceratocone, pense em dois grandes objetivos:

  1. Parar a progressão da doença

  2. Melhorar a qualidade da visão

Hoje, dois procedimentos são amplamente utilizados para isso:

  • Crosslinking corneano (CXL)

  • Segmentos de anel intracorneano (ICRS)

Mas surge uma pergunta muito comum entre pacientes (e também entre médicos):👉 A ordem desses tratamentos faz diferença no resultado final?

Um estudo robusto publicado em 2025 no Journal of Cataract & Refractive Surgery trouxe respostas importantes — e tranquilizadoras.

O que faz cada tratamento? (Explicando de forma simples)

🔗 Crosslinking corneano (CXL)

O crosslinking funciona como um “endurecimento controlado” da córnea.Usando vitamina B2 (riboflavina) e luz ultravioleta, o médico cria novas ligações entre as fibras de colágeno da córnea.

📌 Analogia simples:É como reforçar o concreto de um prédio antigo com barras de aço para evitar que ele continue cedendo.

✔️ Principal função: parar ou desacelerar a progressão do ceratocone❌ Não tem como objetivo principal melhorar a visão

🌀 Anel intracorneano (ICRS)

Os segmentos de anel são pequenas estruturas implantadas dentro da córnea para regularizar sua curvatura.

📌 Analogia simples:Imagine um colchão afundado no meio. Ao colocar suportes estratégicos por baixo, ele volta a ficar mais plano.

✔️ Principal função: melhorar a qualidade visual✔️ Reduz irregularidades e distorções✔️ Pode diminuir a dependência de lentes rígidas ou óculos fortes

A grande dúvida: fazer o anel antes ou depois do crosslinking?

Durante anos, discutiu-se se o crosslinking, ao “endurecer” a córnea, poderia diminuir o efeito do anel, já que o anel depende da capacidade da córnea de se remodelar.

Este novo estudo resolveu essa dúvida de forma elegante.

O que o estudo analisou?

🔬 Foram avaliados 198 olhos com ceratocone, tratados entre 2015 e 2018.Após uma análise estatística avançada chamada “propensity score matching”, os pesquisadores compararam dois grupos equivalentes:

  • 👁️ 32 olhos que já haviam feito crosslinking

  • 👁️ 32 olhos que nunca haviam sido operados (córneas virgens)

📊 Os grupos foram cuidadosamente igualados em:

  • Grau do ceratocone

  • Espessura da córnea

  • Curvatura (Kmax, SimK)

  • Tipo e espessura do anel

  • Aberrações ópticas (como o coma)

➡️ Isso garante que a comparação seja justa e confiável.

Resultados: o que realmente aconteceu?

📈 Ambos os grupos melhoraram significativamente, e o mais importante:

👉 Os resultados foram praticamente iguais, independentemente de o crosslinking ter sido feito antes ou não.

Melhora observada:

  • ✔️ Visão sem óculos

  • ✔️ Visão com óculos

  • ✔️ Redução do grau

  • ✔️ Achatamento da córnea

  • ✔️ Redução de aberrações ópticas (especialmente o coma, responsável por sombras e duplicações)

📌 Curiosidade importante:O coma é a principal aberração visual no ceratocone e uma das maiores causas de má qualidade visual. A redução foi semelhante nos dois grupos, mostrando que o anel funciona bem mesmo em córneas já “endurecidas” pelo CXL.

❗ Nenhuma complicação cirúrgica foi registrada.

Por que o tempo entre os procedimentos é tão importante?

Um detalhe crucial do estudo:🕒 Todos os pacientes que fizeram crosslinking aguardaram pelo menos 12 meses antes do anel.

Isso é fundamental porque:

  • O crosslinking pode causar um leve “embaçamento” temporário da córnea (haze)

  • Nos primeiros meses, a córnea ainda está se reorganizando

  • Aguardar esse período garante maior precisão do laser femtosegundo e menor risco cirúrgico

📌 Curiosidade técnica:Estudos mostram que córneas recém-crosslinkadas podem oferecer maior resistência ao laser, dificultando a criação do túnel do anel. Esse risco praticamente desaparece após um ano.

O que isso muda na prática clínica?

Este estudo confirma algo muito importante:👉 Não existe uma única sequência obrigatória para todos os pacientes.

O tratamento pode (e deve) ser individualizado.

🧠 Estratégia prática baseada em ciência:

  • 👶 Pacientes jovens, com progressão ativa:👉 Crosslinking primeiro, anel depois

  • 👓 Pacientes com grande distorção visual e necessidade imediata de enxergar melhor:👉 Anel primeiro, crosslinking depois

  • ⏳ Desde que haja estabilidade e tempo adequado entre os procedimentos, o resultado final é equivalente

E o futuro? Uma curiosidade promissora

O artigo também cita os CAIRS (Corneal Allogenic Intrastromal Ring Segments), anéis feitos a partir de tecido humano doador, uma alternativa biológica aos anéis sintéticos.

🔬 Estudos iniciais mostram que:

  • Eles se integram melhor à córnea

  • Podem causar menos reação tecidual

  • Também funcionam bem em córneas com ou sem crosslinking prévio

➡️ Mais uma evidência de que o planejamento individualizado é o verdadeiro segredo do sucesso.

Conclusão — mensagem para o paciente

✔️ Fazer crosslinking antes não atrapalha o efeito do anel

✔️ O anel continua eficaz para melhorar a visão

✔️ A ordem dos tratamentos pode ser adaptada ao seu caso

✔️ O mais importante é estabilidade, planejamento e acompanhamento especializado


👁️ No ceratocone, não existe receita pronta — existe ciência aplicada ao seu olho.


dr Flavio Germano

 
 
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