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Posso beber depois de uma cirurgia nos olhos?

  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

O que a ciência realmente diz

Você operou os olhos pela manhã. À noite, alguém abre uma garrafa de vinho para comemorar. Surge então a pergunta que muitos pacientes fazem quase em voz baixa:

“Doutor, só uma taça pode prejudicar a cirurgia?”

A resposta mais honesta não cabe simplesmente em um “sim” ou “não”.

O álcool não costuma “desfazer” uma cirurgia refrativa, deslocar uma lente intraocular ou anular instantaneamente o efeito de um procedimento. O problema é mais sutil: nas primeiras horas após uma cirurgia ocular, ele pode interagir com sedativos e analgésicos, piorar a qualidade da lágrima, aumentar o ressecamento, reduzir a atenção aos colírios e dificultar o cumprimento das orientações pós-operatórias.

Por isso, nas primeiras 24 horas, a recomendação mais segura é não consumir bebidas alcoólicas, especialmente quando houve sedação. Depois desse período, a liberação depende do tipo de cirurgia, dos medicamentos prescritos, da condição do olho e da evolução observada pelo oftalmologista.

A resposta prática

Como regra geral:

Nas primeiras 24 horas: não beba.

Nas primeiras 48 a 72 horas: seja ainda mais cauteloso após cirurgias que envolvem a superfície da córnea, como PRK, Trans-PRK, LASEK, crosslinking ou procedimentos em pacientes com olho seco.

Nos dias seguintes: em cirurgias sem complicações, uma pequena quantidade poderá ser liberada pelo cirurgião, desde que o paciente não esteja usando medicamentos incompatíveis, não apresente dor, inflamação importante, queda da visão ou dificuldade para cumprir o tratamento.

Esse intervalo é uma orientação prudente, e não uma regra matemática. Uma cirurgia de catarata simples não exige necessariamente o mesmo período de restrição de um transplante de córnea, uma cirurgia de retina ou uma reconstrução palpebral.

Por que o álcool deve ser evitado no primeiro dia?

1. A sedação pode continuar agindo mesmo quando você se sente bem

Muitas cirurgias oftalmológicas são realizadas com anestesia local associada a uma sedação leve. O paciente acorda rapidamente, conversa normalmente e pode acreditar que todos os medicamentos já foram eliminados.

Mas sensação de normalidade não significa recuperação completa.

Sedativos podem continuar interferindo no julgamento, nos reflexos, no equilíbrio e na coordenação durante várias horas. O álcool potencializa esses efeitos. Por esse motivo, serviços de oftalmologia e anestesiologia orientam que pacientes que receberam sedação não consumam álcool por pelo menos 24 horas.

A combinação torna-se especialmente perigosa quando são utilizados benzodiazepínicos ou analgésicos opioides. Álcool, opioides e benzodiazepínicos deprimem o sistema nervoso central por mecanismos diferentes e podem somar seus efeitos sobre a respiração.

Portanto, a primeira razão para não beber depois da cirurgia nem sempre está dentro do olho. Muitas vezes, está no cérebro, na respiração e nos reflexos.

2. O álcool pode prejudicar temporariamente a lágrima

A superfície ocular é revestida por uma película extremamente fina e sofisticada: o filme lacrimal. Ele não serve apenas para “molhar” o olho. A lágrima funciona como a primeira lente óptica do sistema visual, nutre a córnea, reduz o atrito das pálpebras e protege contra microrganismos.

Em um estudo realizado com voluntários saudáveis, o etanol ingerido por via oral foi detectado tanto no sangue quanto nas lágrimas. Após a ingestão, houve aumento da osmolaridade lacrimal, redução do tempo de ruptura do filme lacrimal e maior coloração da córnea pela fluoresceína — sinais compatíveis com instabilidade da lágrima e sofrimento da superfície ocular.

Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas acordam após uma noite de consumo de álcool com os olhos ardendo, vermelhos ou com sensação de areia.

Em um olho recém-operado, principalmente após cirurgia refrativa ou procedimento sobre a córnea, esse ressecamento temporário pode causar mais desconforto, oscilação visual e dificuldade para manter a superfície ocular estável.

3. Beber muito é diferente de tomar uma taça ocasional

Esse ponto é fundamental.

A ciência possui poucos estudos específicos avaliando o efeito de uma única taça de vinho depois de uma cirurgia oftalmológica. A maior parte das evidências sobre cicatrização vem de cirurgias realizadas em outras partes do corpo.

Estudos mostram que o consumo elevado ou frequente de álcool antes de operações está associado a maior risco de infecções, complicações gerais, alterações pulmonares, problemas de cicatrização e internações prolongadas. Uma revisão encontrou aumento de complicações principalmente entre pacientes com consumo mais alto; para o consumo baixo ou moderado, as evidências foram muito mais limitadas.

Por outro lado, outra metanálise não encontrou o álcool como fator independente para determinados tipos de infecção cirúrgica depois de ajustar os resultados para idade e tabagismo.

A conclusão madura não é afirmar que “qualquer gole impede a cicatrização”. A conclusão é que:

quanto maior e mais frequente o consumo, maior tende a ser a preocupação cirúrgica; para pequenas quantidades ocasionais, os dados são mais incertos e dependem do contexto clínico.

O álcool altera a pressão dos olhos?

Essa é uma das maiores curiosidades sobre o tema.

Experimentos antigos observaram que o álcool poderia reduzir temporariamente a pressão intraocular. Em um estudo, a queda chegou a alguns milímetros de mercúrio, mas a pressão retornou aos valores anteriores em pouco mais de uma hora.

Isso levou algumas pessoas a imaginar que beber poderia ser benéfico para quem tem glaucoma.

Não é.

A redução é breve, imprevisível e não possui valor terapêutico. Estudos populacionais mais recentes sugerem que o consumo habitual pode estar associado, na realidade, a pressões intraoculares discretamente mais elevadas e a uma pequena associação com glaucoma de ângulo aberto. Os próprios autores ressaltam que a certeza dessa evidência ainda é muito baixa.

Álcool não substitui colírios, laser, cirurgia ou acompanhamento do glaucoma.

A recomendação muda conforme a cirurgia?

Cirurgia de catarata

Na cirurgia de catarata, a recomendação mais importante é evitar álcool durante as primeiras 24 horas, principalmente se houve sedação.

Em uma cirurgia simples, realizada apenas com anestesia tópica e sem complicações, uma quantidade pequena nos dias seguintes provavelmente não interferirá diretamente na lente implantada. Entretanto, o paciente deve estar lúcido para utilizar corretamente os colírios, evitar coçar o olho, proteger-se de quedas e perceber qualquer alteração visual.

A lente intraocular não “absorve” álcool e não perde sua função por causa de uma taça. O cuidado está no organismo e no comportamento durante a recuperação.

LASIK e SMILE

Após LASIK ou SMILE, a visão costuma melhorar rapidamente, o que pode transmitir uma falsa sensação de recuperação completa.

Entretanto, a córnea ainda está se adaptando e a inervação da superfície ocular pode permanecer temporariamente alterada. Como o álcool pode desestabilizar a lágrima, evitá-lo nas primeiras 24 a 48 horas é uma conduta sensata, principalmente em pacientes que já apresentavam olho seco.

Além disso, ambientes associados ao consumo de álcool frequentemente possuem ar-condicionado, fumaça, vento, maquiagem, pouco sono e maior risco de tocar ou esfregar os olhos — uma combinação pouco favorável para uma córnea recém-operada.

PRK, Trans-PRK e LASEK

Nessas cirurgias, o epitélio da córnea precisa se reorganizar e cicatrizar. Nos primeiros dias, o paciente pode apresentar ardência, lacrimejamento, fotofobia e visão oscilante.

Aqui, a prudência deve ser ainda maior. O ideal é evitar bebidas alcoólicas durante a fase inicial de fechamento epitelial e seguir rigorosamente a orientação do cirurgião, sobretudo enquanto houver lente de contato terapêutica.

Uma curiosidade: em algumas técnicas de superfície, o próprio álcool diluído pode ser utilizado pelo cirurgião, durante poucos segundos e em concentração rigorosamente controlada, para facilitar a separação do epitélio. Isso não significa que beber álcool tenha o mesmo efeito. Uma aplicação cirúrgica localizada, breve e controlada é completamente diferente da ingestão e da distribuição sistêmica do etanol.

Crosslinking e cirurgia do ceratocone

Após o crosslinking, principalmente quando o epitélio é removido, a superfície da córnea passa por um período de regeneração.

Durante essa fase, conforto, hidratação, lubrificação e uso correto dos medicamentos são prioridades. O álcool pode agravar a sensação de olho seco e facilitar esquecimentos nos horários dos colírios.

Pacientes submetidos ao implante de anel intracorneano ou a cirurgias combinadas também devem respeitar o período individual determinado pelo cirurgião.

Transplante de córnea

Após um transplante, a recomendação precisa ser mais individualizada.

Esses pacientes frequentemente utilizam corticoides por períodos prolongados e podem estar em tratamento com outros medicamentos sistêmicos. Além disso, posicionamentos específicos podem ser necessários em cirurgias como DMEK ou DSAEK, nas quais uma bolha de ar ou gás auxilia na adesão do tecido transplantado.

O consumo de álcool não deve ser retomado sem discutir o esquema completo de medicamentos e a evolução do enxerto.

Cirurgia de retina com bolha de gás

Existe um mito curioso: algumas pessoas acreditam que o álcool faria a bolha colocada dentro do olho “aumentar” ou “estourar”.

A bebida alcoólica não é o principal gás perigoso nesse cenário. O grande risco é o óxido nitroso, um gás utilizado em algumas anestesias. Ele pode penetrar rapidamente na bolha intraocular, expandi-la e provocar elevação dramática da pressão do olho, com relatos de perda visual irreversível.

Viagens de avião e grandes mudanças de altitude também são proibidas enquanto houver gás dentro do olho.

O álcool, por outro lado, pode prejudicar o equilíbrio, aumentar o risco de quedas e dificultar o posicionamento de cabeça solicitado pelo retinólogo. Portanto, mesmo sem “expandir a bolha”, pode comprometer indiretamente uma parte importante do tratamento.

Mitos e verdades

“Cerveja é mais fraca, então está liberada.”

Mito.

O que importa é a quantidade total de etanol ingerida, e não apenas o tipo de bebida. Várias cervejas podem fornecer mais álcool do que uma única taça de vinho.

“Vinho melhora a circulação e ajuda o olho a cicatrizar.”

Mito.

Não há evidência de que consumir vinho após uma cirurgia ocular acelere a cicatrização. A recuperação depende do procedimento realizado, da saúde dos tecidos, do controle da inflamação e do cumprimento do tratamento.

“Uma taça pode fazer a lente da catarata sair do lugar.”

Mito.

O álcool não empurra mecanicamente uma lente intraocular. Os riscos mais prováveis são indiretos: queda, trauma, vômitos, esquecimento dos colírios ou combinação com medicamentos.

“Álcool baixa a pressão ocular e ajuda no glaucoma.”

Mito perigoso.

A eventual redução aguda é pequena e passageira. O consumo habitual pode estar associado a uma pressão discretamente maior, e álcool jamais deve ser encarado como tratamento para glaucoma.

“Se não houve sedação, posso beber imediatamente.”

Nem sempre.

A ausência de sedação elimina apenas uma parte do problema. Ainda devem ser considerados o tipo de cirurgia, o estado da córnea, o risco de sangramento, os medicamentos utilizados e a capacidade de cumprir corretamente as orientações.

“Depois de alguns dias, nunca mais poderei beber.”

Mito.

Na maioria das cirurgias sem complicações, a restrição é temporária. O objetivo não é criar uma proibição permanente, mas proteger o período mais delicado da recuperação.

Uma curiosidade histórica: o álcool já foi usado para tratar os olhos

Muito antes das técnicas modernas, o álcool foi empregado na medicina como antisséptico e até em injeções atrás do olho para aliviar dores oculares intensas em olhos sem possibilidade de recuperação visual.

Atualmente, seu uso oftalmológico é muito mais preciso. Em concentrações controladas, pode ser empregado na cirurgia de superfície da córnea, no tratamento de erosões corneanas recorrentes, em alguns casos de crescimento epitelial após LASIK e durante a remoção de determinadas lesões da superfície ocular.

É um belo exemplo de como, na medicina, uma mesma substância pode ser prejudicial ou terapêutica conforme a dose, o local, o tempo de exposição e a forma de utilização.

Quando o problema não é a bebida, mas o sinal de alerta

Depois de qualquer cirurgia ocular, procure rapidamente o oftalmologista diante de:

  • piora súbita ou progressiva da visão;

  • dor intensa ou crescente;

  • aumento importante da vermelhidão;

  • secreção abundante;

  • flashes luminosos ou surgimento repentino de muitas moscas volantes;

  • sombra semelhante a uma cortina no campo visual;

  • náuseas ou vômitos associados a dor ocular;

  • traumatismo no olho operado.

Dor forte e piora rápida da visão após uma cirurgia ocular devem ser tratadas como situações de urgência.

Não atribua automaticamente a visão embaçada a uma taça de vinho ou a uma noite mal dormida. Algumas complicações precisam ser examinadas sem demora.

Afinal, quando posso brindar?

O melhor momento não é determinado apenas pelo relógio, mas pela recuperação do olho.

Em termos gerais, não consuma álcool nas primeiras 24 horas, especialmente se recebeu sedação. Após cirurgias da superfície da córnea, transplantes, procedimentos de retina, glaucoma ou operações com maior risco de sangramento, o período de abstinência poderá ser mais longo.

Quando houver liberação médica, moderação continua sendo a melhor regra: beba pouco, alimente-se, mantenha-se hidratado e não altere os horários dos colírios.

O sucesso de uma cirurgia ocular raramente depende de uma única atitude. Ele nasce da soma de pequenos cuidados: proteger o olho, utilizar corretamente os medicamentos, comparecer aos retornos e reconhecer precocemente qualquer sinal fora do esperado.

O brinde pode esperar um pouco. A visão que estamos protegendo deverá acompanhá-lo por muitos anos.

Dr. Flávio GermanoOftalmologista — Córnea, Catarata e Cirurgia RefrativaCEO Bauru — Centro de Excelência em Oftalmologia

Este artigo possui caráter educativo e não substitui as orientações específicas fornecidas pelo cirurgião responsável.


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