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LUBOS - Consenso Latino-Americano sobre Olho Seco

  • Foto do escritor: Flávio Germano
    Flávio Germano
  • 13 de jan.
  • 3 min de leitura

Durante muito tempo, o olho seco foi tratado como um problema simples, quase trivial. Ardência? Colírio. Sensação de areia? Mais colírio. Mas a oftalmologia moderna chegou a uma conclusão clara: olho seco não é uma doença única — é um conjunto de doenças que se manifestam de formas diferentes.

Foi exatamente essa visão que motivou um grande grupo de especialistas latino-americanos a criar o Consenso LUBOS, publicado na revista Cornea em 2025. O objetivo era ambicioso, mas extremamente prático: organizar o diagnóstico, classificar a gravidade e guiar o tratamento do olho seco de forma clara, realista e adaptada à nossa população.

Um círculo vicioso invisível

O consenso parte de um conceito central: o olho seco é uma doença multifatorial. Isso significa que vários mecanismos atuam ao mesmo tempo — e se alimentam mutuamente.

Tudo começa com a instabilidade do filme lacrimal. Quando a lágrima perde sua estabilidade, surge a hiperosmolaridade, ou seja, a lágrima fica concentrada demais. Esse ambiente “salino” ativa processos inflamatórios microscópicos que danificam as células da superfície ocular, alteram a sensibilidade do olho e perpetuam o desconforto.

É um verdadeiro círculo vicioso: instabilidade gera inflamação, inflamação piora a lágrima, e a lágrima pior alimenta ainda mais a inflamação.

Por que a América Latina precisava de um consenso próprio?

Clima, exposição solar, poluição, acesso desigual a tratamentos, diferenças socioeconômicas e até fatores étnicos fazem com que o olho seco se manifeste de maneira diferente na América Latina em comparação com Europa ou América do Norte.

O painel LUBOS reuniu 28 especialistas em córnea de 8 países, usando um rigoroso método de consenso científico, para criar uma classificação simples, prática e baseada em evidências — algo que realmente funcione no consultório.

Primeiro entender, depois tratar

Uma das grandes contribuições do consenso foi reforçar que não se deve tratar antes de classificar. O diagnóstico começa com perguntas simples (“Você sente olho seco?”, “Sensação de corpo estranho?”), passa por questionários validados como o OSDI e se completa com exames da superfície ocular.

Com base nesses dados, o paciente é classificado em níveis de gravidade (LUBOS I a IV). Essa classificação define a intensidade e a combinação do tratamento, evitando dois erros comuns: tratar demais quem precisa de pouco ou tratar de menos quem precisa de muito.

O papel central das glândulas de Meibômio

Um dado chama atenção: na prática latino-americana, até 70–90% dos casos de olho seco têm componente evaporativo, ligado à disfunção das glândulas de Meibômio. Essas glândulas produzem a camada oleosa da lágrima, responsável por evitar evaporação excessiva.

Quando elas falham, a lágrima evapora rápido demais, o tempo de ruptura diminui e o olho entra em sofrimento. Por isso, o consenso dá grande peso à avaliação e ao tratamento das pálpebras desde o início — algo que muitos pacientes nunca haviam recebido antes.

Por que o “veículo” do colírio importa tanto?

Outro ponto fascinante é a explicação do porquê nem todo colírio serve para todo tipo de olho seco.

  • Se o problema é falta de produção lacrimal, lubrificantes aquosos ou viscoelásticos (como ácido hialurônico ou carboximetilcelulose) fazem mais sentido.

  • Se o problema é evaporação excessiva, lubrificantes lipídicos ajudam a repor a camada externa da lágrima.

  • Conservantes, especialmente o BAK, devem ser evitados no uso crônico, pois agravam a inflamação que se tenta tratar.

O colírio não é apenas “molhar o olho”. Ele precisa interagir corretamente com a fisiologia da lágrima.

Tratamento em degraus: subir no momento certo

O consenso LUBOS propõe um tratamento em escada terapêutica. Começa-se com educação, ajustes ambientais e lubrificantes adequados. Se não for suficiente, avança-se para colírios anti-inflamatórios, imunomoduladores e, nos casos mais graves, terapias avançadas como soro autólogo ou dispositivos especiais.

A lógica é simples e poderosa: não adianta subir degraus sem estabilizar o primeiro. Se a hiperosmolaridade não for corrigida, nenhum tratamento mais avançado terá sucesso duradouro.

Uma nova forma de enxergar o olho seco

O grande legado do consenso LUBOS é mudar a mentalidade. Olho seco não é frescura, não é apenas desconforto passageiro e não se resolve com soluções genéricas.

É uma condição complexa, dinâmica e altamente individual. Quando bem compreendida e tratada de forma personalizada, o paciente não apenas melhora — ele entende o próprio olho.

E conhecimento, nesse caso, também é tratamento.

👁️ Ver bem começa por entender o que acontece antes da visão.

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